A exposição Poéticas no Mangue, que já foi divulgada neste blog, organizada pelo curador Fábio Magalhães está maravilhosa. Foram reunidas obras não só de Segall, mas de outros artistas que retrataram visualmente a Zona do Mangue¹. Obras de Di Cavalcanti, Antonio Gomide, Poty Lazzarotto, Otto Lange, Walter Jacob, Manoel Martins, Guido Viaro, Maciej Babinski e Cícero Dias deram outras perspectivas de acordo com a posição de cada um destes perante a época, o local e as mulheres e de acordo suas influências artísticas e filosóficas dando um colorido ao assunto.
As que chamam mais a atenção são as de Segall, Di Cavalcanti e a última e única obra de Cícero Dias, O Sonho da Prostituta.
As obras de Lasar Segall seguem uma linha de alguém que vive a situação como expectador, ou seja, observador, analisando o ambiente com suas relações e sentimentos ali travados. Segall consegue em meio a desejos e máscaras captar a miséria física e mental na qual se encontravam as prostitutas e também seus clientes. Nesse primeiro aspecto uma ilustração do álbum Bubu (1921) – inspirado na novela Bubu de Montparnasse, produzido ainda antes de conhecer o Mangue, num primeiro contato com o tema – é a que consegue evidenciar isso de forma mais comovente e chocante, já o no segundo aspecto é a pintura O marinheiro e a prostituta, onde os dois estão lado a lado mas parecem sozinhos, perdidos dentro de si mesmos. Não existe apelo sensual no nu e nas curvas, a forma em como são apresentadas essas mulheres, no aspecto do traço e composição, causam um misto de compaixão e pena, o que me faz lembrar um trecho das anotações de Stefan Zweig:
“Que caminhos de longe, que destinos reúnem essas judias e francesas, até terminarem aqui, pelo preço de três mil-réis (cerca de três francos franceses)! Que cenário para a satisfação do mais banal e animal dos prazeres rápidos – raramente vi algo tão fascinante como essas quatro ruas cintilantes, que dentro de seus muros inquietantes servem a um único propósito, e exclusivamente a ele. Algumas mulheres são realmente belas, sobretudo as mestiças de origem indígena, com seus corpos meigos e cabelos lisos e negros metálicos: uma discreta melancolia paira sobre todas e por isso a sua humilhação, sua exposição na vitrine nem parece vulgar, comove mais do que excita. Uma visão inesquecível.” (Stefan Zweig em Viagem ao Brasil e Argentina)
Di Cavalcanti mostra um Mangue mais divertido e excitante, com mulheres enfeitadas e um ambiente animado com música e dança. Talvez seja esta sua visão por ser justamente um frequentador dessa zona como boêmio, ou seja, não um expectador, mas um participante, envolvido pela nuvem de ilusões que cerca o ambiente onde acontece a prática do meretrício. É uma visão que também é interessante, porque de certa forma desloca as mulheres da posição de vítimas e as coloca como profissionais que sabiam a arte de seduzir.
Vale a pena conferir!
A exposição estará disponível no Museu Lasar Segall até o dia 08 de Julho deste ano.
Endereço:
Rua Berta, 111, Vila Mariana – São Paulo/SP
Próximo ao Metrô Santa Cruz
Funcionamento:
Diariamente das 11 às 19 horas, fechando somente às terças-feiras. Entrada franca.
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¹ A Zona do Mangue foi o local onde se concentrou o baixo meretrício no Rio de Janeiro a partir da década de 20 por causa das constantes reorganização urbanística pela Prefeitura, ficava próxima a extinta Praça Onze de Julho que terminou com a construção da Avenida Presidente Vargas e o metrô, na região do Canal do Mangue, por isso o nome. Inúmeros estabelecimentos ofereciam mulheres de diversas origens (nativas e estrangeiras) e características, principalmente originárias de comunidades judaicas pobres do Leste Europeu. Foi tema de pinturas, músicas e histórias mas também gerou grande inconveniente para a comunidade judaica da região da Praça.
REFERÊNCIAS
KUSHNIR, Beatriz. Baile de Máscaras, Mulheres Judias e Prostituição: As Polacas e as Associações de Ajuda Mútua. Rio de Janeiro: Imago Editora, 2ª Edição, 1996.
MALAMUD, Samuel. Recordando a Praça Onze. Rio de Janeiro: Livraria Kosmos Editora, 2ª Edição, 1988.
MONZANI, Marcelo & SCHWARTZ, Jorge (org.). Museu Lasar Segall: 50 Obras do Acervo. São Paulo: Imprensa Oficial, 2010.
VICENT, Isabel. Bertha, Sophia e Rachel: A Sociedade da Verdade e o Tráfico das Polacas nas Américas. Rio de Janeiro: Rulume Dumará, 1ª Edição, 2006.







































